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Theresa Ferreira da Silva

Atualizado: 6 de Mai de 2019

Sobre a Theresa, babá e cozinheira que nos criou e de quem morro de saudades.


Esta é a Theresa Ferreira da Silva. Theresa com TH, como gostava de dizer. Muito magra, elegante, de porte sempre ereto embora tivesse as pernas totalmente arqueadas. Segundo ela porque começou a andar cedo demais, aos nove meses. Nasceu em uma cidadezinha na divisa entre Minas Gerais e Rio chamada Sossego. Nesses mistérios da memória, lembro que o endereço da casa dela era: Sossego, via Santana do Deserto. E o telefone, não sei também por que me lembro ainda, era "Sossego 33". Fomos uma vez visitar a sua família. O pai era um carpinteiro de origem portuguesa, um homem alto e magro, de olhos muito azuis. Tinha construído com as próprias mãos a casa ampla, confortável, de telhas francesas, alpendre e fogão de lenha na beira da estradinha, acho que a única rua de Sossego. A mãe não chegamos a conhecer, pois morreu quando Theresa era ainda muito nova, “como um passarinho”. Deitou um dia para descansar depois do almoço, e não acordou mais. Parece que foi coração.


Theresa era uma grande contadora de casos. Muito inteligente, muito engraçada, gostava de contar as estórias de sua infância. Falava da avó, costureira, que da janela da casa que se abria sobre a estrada, entregava os ternos que fazia bem dobradinhos em pacotes de papel de pão amarrados com barbante. Falava da mãe, muito amada e muito severa, que, quando tinha que castigar algum filho, mandava o traquinas cortar, ele próprio, a vara de marmelo com que levaria a surra. E se o malandro vinha com uma vara muito seca que, segundo me explicava Theresa, quebraria logo na primeira lambada, a mãe mandava voltar e buscar outra, bem verdinha. Eu ouvia tudo de olhos arregalados. Nunca tinha visto uma vara de marmelo na vida.


Contava também que aprendeu a bordar na fazenda Santa Clara, uma importante fazenda de café da região. Lá viviam duas senhoras que ensinavam às meninas pobres da vizinhança as artes da costura, do bordado, do tricô. Theresa descrevia com detalhes a casa-grande, repleta de móveis imponentes, de cristais e pratarias, aonde ia duas tardes por semana para as aulas que sempre terminavam com um lanche farto, servido na varanda. As professoras eram muito exigentes. Se o bordado ficasse malfeito, a aluna tinha que desmanchar tudo, lavar e passar as linhas para reaproveita-las e começar tudo de novo. Não se toleravam desperdícios.


Theresa saiu de Sossego com dezessete anos, para trabalhar em casa de família no Rio de Janeiro. Teve apenas três patroas. D. Yolanda, D. Thalia, com quem foi morar por alguns anos na França, e minha mãe. Foi quando nos mudamos para os Estados Unidos que Theresa veio trabalhar na casa dos meus pais, como cozinheira. Eu tinha nove anos, e meus irmãos Paulinho e João Pedro, sete e quatro, respectivamente. Beatriz, seu maior xodó, recém-nascida. Tota veio depois. Ela ficou conosco dezenove anos. Depois disso, se aposentou em Sossego, na casa que o pai construiu, onde ficou criando galinhas.


Em Nova York, moramos no subúrbio, em Bronksville, numa casa imensa, de três andares. Theresa e a babá, Leda, davam conta de tudo. Lembro-me de uma vez, preparando a casa para um grande almoço, ela muito eficiente jogou umas três chaleiras de água fervendo sobre a neve que cobria a calçada. E quase matou as visitas que derrapavam no rinque de patinação gelado que se formou. Em outra ocasião, o Presidente Juscelino Kubitscheck, naquela época vivendo no exílio, veio nos visitar. Terminado o jantar, Juscelino foi até a cozinha agradecer a comida deliciosa. Theresa, juscelinista doente, quase teve um treco. Depois do abraço passou uns três dias fungando em cima das panelas cantando “peixe vivo”.


No terceiro andar dessa casa tínhamos um quarto de brinquedos onde passamos muitas tardes de inverno brincando e assistindo televisão. À noite, quando meus pais saíam para alguma função, ficávamos todos lá, empilhados, assistindo ao “Ed Sullivan Show” de que Theresa e Leda gostavam muito. Não sei por que, já que não falavam nenhuma palavra de inglês. Nessas ocasiões a Theresa, com uma paciência eu diria incomum, me dava umas lãs e agulhas grossas, e ensinava os pontos básicos de tricô e crochê.


Mas essa alma maravilhosa se escondia atrás de um gênio de cão. Na minha adolescência em Brasília, Theresa era o terror dos meus amigos da quadra. Uma vez, durante uma animada partida de futebol em frente ao bloco, a bola foi parar dentro do nosso apartamento, no quarto andar. Criou-se uma comissão, formada por quem perdeu no palitinho, para ir buscar a bola, mantida refém pela Theresa, só por pirraça. Ela também acreditava firmemente em disciplina, e em horários rígidos. Bastava ela aparecer na janela do apartamento, que subíamos correndo, sabendo que era a hora do banho e jantar. Quando não tínhamos aula, ela punha nosso café, não quando acordávamos, mas no horário que considerava adequado, ou conveniente, não sei. Então, se não nos apetecia tomar café com leite gelado e torradas secas com queijo derretido coagulado, éramos obrigados a sair da cama no horário que ela estipulava. E volta e meia, ao nosso “bom dia, Theresa” dava resposta azeda: “Bom dia por quê? Sou preta, pobre, feia e velha, por que haveria de ser um bom dia?”. Não era um começo de dia muito auspicioso, mas nós achávamos graça.


Posso dizer que ela ajudou a nos criar. Rezava conosco à noite (me ensinou o credo), vigiava o banho, nos obrigava a comer espinafre... Quando estávamos doentes, fazia emplastros de vic-vaporub, enrolava o nosso pescoço com lenços encharcados em álcool, produzia uns xaropes caseiros de agrião com mel. Da sua cozinha, além de todos os quitutes mineiros que meu pai adora, como frango ao molho pardo com quiabo e angu, saíam bolos, pastéis, e lanches tão especiais que ainda outro dia um colega meu de ginásio lembrou os sanduíches de três andares que eu costumava levar para a escola, que causavam inveja coletiva.

Depois de aposentada e até bem perto de morrer, Theresa vinha nos visitar com frequência, para longas temporadas na casa de minha mãe, nas quais ficava vigiando como um urubu o trabalho dos demais empregados, para terror generalizado. Ela muitas vezes me ajudou com meus filhos pequenos. Uma ocasião, eles foram ficar com os avós em Londres, enquanto meu marido e eu procurávamos casa em Roma, para onde tínhamos acabado de mudar, e Theresa foi chamada para cuidar deles. Como era uma temporada mais longa, minha mãe preparou com o maior carinho um quarto de brinquedos para as crianças no último andar da embaixada. E lá nesse quartinho, onde passavam as tardes, imagino que iguais àquelas da minha infância em Nova York, foi a vez de minha filha receber de Theresa as lãs e as agulhas com que aprendeu a tricotar.


Hoje, vendo esse casaquinho que minha filha fez com tanto carinho, e o gosto que ela tem pelo tricô e pelos trabalhos manuais que a Theresa ensinou, meu coração se enche de saudades e de gratidão por tudo o que ela fez por nós, e pelo privilégio de tê-la conhecido.


Quando estávamos doentes, fazia emplastros de vic-vaporub, enrolava o nosso pescoço com lenços encharcados em álcool, produzia uns xaropes caseiros de agrião com mel.






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